domingo, 2 de agosto de 2015

Cântico Negro - José Régio - Portugal

José Régio - Portugal
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JOSÉ RÉGIO, 

poeta português, autor de um dos mais lindos poemas que eu conheço. Cântico Negro. Leiam-no...

CÂNTICO NEGRO


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doce,
estendendo-me os braços, e seguros
de que seria bom se eu os seguisse
quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olhos-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
e cruzo os braços,
e nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
com que rasguei o ventre à minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
por que me repetis: "Vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
redemoinhar aos ventos,
como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
a ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
só para desflorar florestas virgens,
e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
que me dareis machados, ferramentas, e coragem
para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
e vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
tendes pátrias, tendes tectos,
e tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
e sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
mas eu, que nunca principio nem acabo,
nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me diga piedosas intensões!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "Vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
não sei para onde vou:
- Sei que não vou por aí.

***