sábado, 7 de novembro de 2015

Poema De Sete Faces * Carlos Drummond De Andrade - MG

Poema De Sete Faces
Carlos Drummond De Andrade - MG,
ex morador do Bairro Peixoto, em Copacabana, aonde fui levar suas compras muitas vezes e aqui em suas costumeiras caminhadas pelo calçadão da praia.
*
Poema De Sete Faces

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás das mulheres.
A tarde talvez fosse azul
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas;
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tantas pernas, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
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domingo, 2 de agosto de 2015

Cântico Negro - José Régio - Portugal

José Régio - Portugal
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JOSÉ RÉGIO, 

poeta português, autor de um dos mais lindos poemas que eu conheço. Cântico Negro. Leiam-no...

CÂNTICO NEGRO


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com olhos doce,
estendendo-me os braços, e seguros
de que seria bom se eu os seguisse
quando me dizem: "vem por aqui"!
Eu olhos-os com olhos lassos,
(Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
e cruzo os braços,
e nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
com que rasguei o ventre à minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
por que me repetis: "Vem por aqui"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
redemoinhar aos ventos,
como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
a ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
só para desflorar florestas virgens,
e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
que me dareis machados, ferramentas, e coragem
para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
e vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
tendes pátrias, tendes tectos,
e tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
e sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
mas eu, que nunca principio nem acabo,
nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me diga piedosas intensões!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "Vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
não sei para onde vou:
- Sei que não vou por aí.

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domingo, 26 de julho de 2015

Soneto Ao Amor * Luis Vaz De Camões - Portugal

Luis Vaz De Camões - Portugal
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Soneto Ao Amor

Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no céu eternamente
e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
memória desta vida se consente,
não te esqueças daquele amor ardente,
que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
alguma cousa a dor que me ficou
da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,
que tão cedo de cá me leve a ver-te,
quão cedo de meus olhos te levou.
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Soneto Ao Pastor Jacob
Soneto sobre Amar

Obs.: Títulos atribuídos por Antonio Cabral Filho.
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sexta-feira, 24 de julho de 2015

ÍTACA - Konstantinos Kavafis - Grecia

Konstantinos Kavafis
poeta grego nascido em 1863 e falecido em 1933, apresento-lhes o poema ÍTACA, na tradução de poeta português Jorge de Sena. Registro apenas que busquei atualizar a acentuação - colónias - mas mantive a construção sintática, inclusive por afeição.
***
ÍTACA

Quando partires de regresso a Ítaca,
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e de experiências.
Ciclopes, Lestregônios, e mais monstros,
um Poseidon irado - não os temas,
jamais entrarás tais coisas no caminho,
se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime
teu corpo toca e o espírito te habita.
Ciclopes, Lestregônios, e outros monstros,
Poseidon em fúria - nunca encontrarás,
se não é na tua alma que os transportes,
ou ela os não erguer perante ti.

Deve orar por uma viagem longa.
Que sejam muitas as manhãs de verão,
quando, com que prazer, com que deleite,
entrares em portos jamais antes vistos!
Em colonias fenícias deverás deter-te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes sutis de todas a espécie:
compra desses perfumes quanto possas.
E vai ver as cidades do Egito,
para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
que lá chegar é o teu destino último.
Mas não te apreces nunca na viagem.
É melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.
Sem Ítaca não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.

Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.
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quinta-feira, 23 de julho de 2015

Versos Íntimos - Augusto Dos Anjos - PB

Augusto Dos Anjos
poeta brasileiro, Sapé-PB, 20 de abril de 1884 
- Leopoldina-MG 12 de novembro de 1914.
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VERSOS ÍNTIMOS

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão - esta pantera -
foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
mora, entre feras, sente inevitável
necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
a mão que te afaga é a mesma apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
apedreja essa mão que te afaga,
escarra nessa boca que te beija!
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segunda-feira, 20 de julho de 2015

Autopsicografia * Fernando Pessoa - Portugal


AUTOPSICOGRAFIA
*

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
na dor lida sentem bem,
não as duas que ele teve,
mas só a que eles não tem.

E assim nas calhas de roda
gira, a entreter a razão,
esse comboio de cordas
que se chama o coração.

Fernando Pessoa - Portugal

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